Costuma-se dizer que o Porto tem um problema com o resto do país. Desenganem-se. O país tem um problema com o Porto.
Amo o meu país e a minha cidade (não tanto as pessoas que cá coabitam), e como portuense acho alguma piada quando o resto do país se insurge contra o povo portuense e a mania que somos diferentes. Que nos demarcamos do resto do país para nos declararmos uma nação (todos já ouvimos a expressão que o Porto é uma ‘naçoum’).
Na realidade, a história do Porto é como a da prostituta que diz que não foi ela que escolheu ser puta, que foi a vida que a fez assim.
Ora o Porto não escolher ser diferente, Portugal é que o fez assim, único e especial.
Já me aconteceu várias vezes ser rotulado como “gajo do Porto”, ora quem é do Porto também terá concerteza sentido isso na pele. Por uma ou outra expressão, por sermos pessoas directas e não andarmos com rodeios, por dizermos caralho mais do que aquilo que era preciso, por mandarmos alguém se foder ao 2º acto de estupidez, etc.
O marginal é-o porque se pôs à parte ou foi a sociedade que o marginalizou?
Tenho para mim que o país tem um problema com o Porto, contra a sua simplicidade, contra as suas gentes singulares e inconformadas. O país do fado não admite que exista uma sua parte que não chore sobre o leite derramado, que siga em frente, que conheça a palavra saudade apenas da música de Jobim, um povo que de cabiz baixo continua a lutar por uma vida melhor, porque não há outra maneira de viver onde o conformismo não é uma opcção. Os dias são difíceis mas já vivemos pior, há quem viva pior, portanto, PORRA, para a frente é o caminho. E este país mesquinho insurge-se contra o Porto. A marca da Portugal global, que foi o que mais nenhum país do mundo foi, que se perde hoje pelo resto do país num choro constante daquilo que se perdeu.
E nisto surge uma região. A região do Norte. Confunde-se Porto com o Norte. Não há pessoas mais genuínas que as gentes do Norte. Em cada ruga e em cada calo há uma história de vida, daqueles que não se conformaram a um país que se conformou com glórias passadas e teve de continuar a lutar para viver, sobreviver. Confunde-se o Porto com Braga, Bragança, Vila Real, Viana do Castelo, Barcelos, Gaia, Guimarães, Matosinhos, Amarante, etc.
E depois surge um país, surge Lisboa, Almada, Setúbal, Portalegre, Portimão, Leiria, Beja, Coimbra, Faro, etc. Tal e qual a nossa história, partindo do Norte para Sul a pedido do Papa para expulsão dos infiéis, viramo-nos antes para sul em vez de seguirmos norte, voltamos a repetir a nossa história mas desta vez pela necessidade, a necessidade de voltarmos a ser o que somos, ao país Celta, ao país Luso.
Portugal tem um problema com o Porto pois Portugal quis-se perder à boleia do resto da europa pensando que seguindo a maioria o caminho seria correcto, Portugal esqueceu-se de si mas o Porto continuou a ser Portugal e a mostrar ao país a beleza do que somos. O Porto que afinal é o Norte e o Norte que é o Centro e o Sul, o país que é Portugal juntou-se e voltou-se a sentir a terra lusitania. Portugal quis-se perder mas o Porto que é o Porto, não deixou. A cidade invicta faz jus ao seu nome e não se deixa vencer pelo conformismo que nos vinhamos a perder.
Falta o resto do país perceber que a melhor coisa que nos aconteceu foi a morte da Amália deixar metade do fado morrer. Porque a vida continua e temos que continuar a lutar e na luta tentar sempre vencer. Portugal tem um problema com o Porto e Porto é Portugal. Portugal perdeu-se na sombra daquilo que já foi. Portugal precisa do Porto e do Porto nasceu Portugal.
Duma vez por todas deixem-se de bairrismos, porque estamos todos juntos no mesmo.
Amo-te Porto, amo-te Portugal.
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