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Quotidiano
Nov 29th
Poderia começar com a letra da música de Chico Buarque que se intitula como este post embora escrito com sotaque, deixo-a no entanto para o final, para que as minhas palavras tenham alguma atenção (o que não aconteceria com um prelúdio dessa estirpe pois se tornariam banais logo em seguida).
O hoje; o acordar antes das 7h; mergulhar na pista 4; ver o metro passar porque me recusei a apressar o passo; o choro da criança que viaja na mesma carruagem; o vento nas ventas; a subída da rua mítica da cidade; o bom dia a quem segura a entrada seguido do bom dia a quem secretaria a empresa dois lanços de escadas acima; o bom dia geral ao chegar ao computador que espera ser ligado; o pequeno-almoço a três ou quatro; o almoço de seis a dez; o lanche igual ao pequeno almoço; as chiclets ice ou fire de canela; o silêncio; descida ao som dum qualquer artista sorteado no leitor; a abstração do local e das pessoas; o irc; o jabber; a falta de jantar; o re-encontro da metade que faltava; a despedida; o vazio; o jogo; o sono; o amanhã; o hoje.
Cotidiano
Chico Buarque
1971Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelãTodo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de caféTodo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijãoSeis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixãoToda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavorTodo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

